O que você herdou além do sobrenome?
uma reflexão sobre capital intelectual
Recentemente eu tive contato com a ideia de capital intelectual, que é o conjunto de experiências, relacionamentos e o repertório que as pessoas desenvolvem ao longo da vida (e que a família e o ambiente tem grande influência).
Na semana passada eu vi alguns vídeos no TikTok sobre isso e curiosamente alguns amigos trouxeram esse assunto a tona também.
E é curioso ter acesso a “essa ideia” neste momento, pois estou em São Paulo, e aqui tenho acesso a pessoas que têm uma realidade totalmente diferente da minha e dos meus amigos mais próximos em SC… e não falo em termos financeiros, mas sim em vivências e oportunidades.
São pessoas incríveis que vieram de famílias de Doutores, de médicos, de bancários, de agricultores, de advogados, de pessoas envolvidas em política… e eu comecei a perceber o quanto realmente esse “background familiar" realmente impacta. Porque por mais que a gente consiga enriquecer de uma “forma fácil”, ter um capital intelectual “elevado” é uma coisa que já vem de família.
Nós podemos construir repertório, e eu sou fã em construir repertório. Sempre falo para as pessoas expandirem seus repertórios através de estudos, eventos, contatos, experiência. O repertório nos ajuda a começarmos interações, a nos conectarmos com outras pessoas, a não nos sentirmos deslocados em rodas de conversa, mas o capital intelectual vai um pouco além.
Ele vai em acessos que a pessoa teve durante a formação dela, que outras pessoas, por mais que tenham todo o dinheiro do mundo, não vão necessariamente conseguir. Um exemplo simples: eu tive a oportunidade de ver os quadros de Monet e de Renoir nesse final de semana aqui em São Paulo, no MASP.



Foi uma exposição incrível, e pela primeira vez na vida eu apreciei de pertinho a forma das pinceladas características dos impressionistas, mas que antes eu só tive conhecimento através de livros e vídeos, e em museus que eu nem sabia o que estava vendo.
E aí em algum momento eu lembrei que quando eu fui para o meu intercâmbio em 2014, eu morei em Londres, eu fui na National Gallery, eu fui nos museus de Londres, e depois morei cinco meses em Roma, e eu fui em várias exposições lá, mas eu não tinha esse incentivo de buscar um quadro específico, de conhecer algum artista que estava lá.
E é engraçado porque final do ano passado eu estive na Itália novamente e eu fui em museus. Só que dessa vez eu prestei muito mais atenção. Eu sabia o que eu queria ver, eu parava, eu ficava analisando com o tempo. Depois eu buscava uma informação para compreender ainda mais.
E eu percebi que conforme eu vou ficando mais velha, eu vou entendendo de coisas mais clássicas que até então não tinha incentivo, digamos assim. Não tinha pela minha família, pelos meus amigos, pelo meu ambiente. Óbvio que saber que Monet, Renoir, Degas, Van Gogh, Picasso e tantos outros são pintores é uma coisa, mas agora entender o que é impressionismo, pós-impressionismo, surrealismo etc, e poder ter tido a oportunidade de visitar um museu ou apreciar essas obras ao vivo, é outra experiência completamente diferente. Da mesma forma, saber que Michelangelo trabalhava com mármore é uma coisa, mas ver de perto o Davi exposto é outra, até porque eu não fazia ideia do tamanho dele rs.
Lembro que no meu intercâmbio eu notava as crianças indo nos museus, prestando atenção nas explicações. Eu achava aquilo fantástico!
Recentemente conversei sobre isso com a minha professora de inglês. Ela é inglesa, formada em literatura, mora no interior da Inglaterra,e fez homeschooling com o filho dela (coisa de 20 anos atrás).
E ela me contou que passava dois meses no ano viajando dentro da Europa, óbvio que para ela é uma praticidade, e o marido dela também tinha essa flexibilidade no trabalho, de poder viajar junto. Mas o ponto é que o filho dela cresceu vendo ao vivo tudo aquilo que a gente via aqui nos livros.
Para ele pode ser mais fácil articular sobre arte e filosofia, e talvez ele tenha mais segurança para estar em lugares “sofisticados” se comparado com quem não vivenciou isso.
Eu notava essa diferença na faculdade, mas não sabia como explicar. Tinha colegas que tiveram a oportunidade de ir para a Europa ou outros continentes e países muito cedo com os pais, de passar um, dois anos, estudar um período por lá, e era totalmente diferente a relação que eu via neles ao ter acesso a textos mais complexos de ler, a facilidade de conexão com pessoas.. eles tinham um repertório muito mais amplo, que ia muito além do conteúdo de sala de aula e que vinha justamente das experiências e conexões familiares que eles puderam viver.
Pesquisando sobre capital intelectual, entendi que ele nos leva ao capital relacional, por exemplo, alguém que nasce em uma família de professores universitários tende a ter, desde criança, conversas mais sofisticadas, livros à disposição, contato com assuntos e redes de relacionamento que fortalecem seu capital intelectual.
Ou seja, não é só o que você sabe, mas também quem você conhece, e muitas vezes quem a sua família conhece, que pode potencializar seu repertório e suas oportunidades.
E eu sei que tem coisas que a gente consegue atingir na vida, obviamente, por conexões, e nós vamos formando as nossas, vamos construindo nosso próprio capital intelectual através das nossas experiências, mas quando comparado a uma pessoa que já vem de uma família, que já tem muita vivência passando de geração para geração, que passou por uma infância com outro tipo de conversa, redes de relacionamento, que já tem essa estrutura enraizada de saber, conhecer de música, conhecer de literatura, conhecer de artistas, ter acessos é diferente.
Acho muito curioso como eu tenho percebido isso agora, e sei que não vou conseguir tapar esse buraco geracional, mas, estando consciente, eu percebo que estou dando muito mais valor às informações que eu tenho, e que eu tenho buscado mais em conseguir acessá-las também.
Aproveitando, meses atrás escrevi sobre Van Gogh, e agora está na minha lista conhecer os lugares por ele passou.
Bom..esse assunto da pano para manga, mas quis documentá-lo por aqui de forma simples assim, pra me lembrar que tem coisas que não vou sanar, mas que isso não é justificativa para que eu não busque acumular o meu repertório, muito pelo contrário.
E por aí, já pensou sobre isso? Me conta aqui nos comentários.



Excelente reflexão, amei!